Entardecia lentamente naquela primavera em Porto Alegre. As ruas movimentadas anunciavam uma curta noite. Mas com certeza um longuíssima noite para quatro alunos da Escola Anne Frank. Eu sou uma deles. Vamos as apresentações: Douglas, é brasileiro, mas tem descendência japonesa. Ao seu lado está Igor, possuí uma mecha de cabelo branco, de nascença, com o formato de um raio. É o mais forte do grupo. Ao seu lado está Eduardo, um garoto que faz parte do time de futebol do colégio. E o meu nome é Iviane, também jogo futebol. E sou a única garota que se arrisca a andar com eles.
Estávamos sentados em uma mesa circular, na biblioteca da escola. Era sexta-feira, e tínhamos um trabalho para fazer. E como a data de entrega era segunda-feira e nós tínhamos de fazer um cont. Ficamos depois da aula para fazê-lo. Nós não tínhamos idéia do que fazer, de qual assunto tratar, pois era uma desorganização total. E ninguém se entendia.
- Eu estou com sede. Querem um suco? - Igor falou.
Todos concordaram.
- Então vai pegar Eduardo. - Igor disse, querendo parecer mandante.
- Eu? - Retrucou Eduardo.
- Não a minha vó! - Igor disse com tom zombeteiro.
- Tá bom! Chega vocês dois – Eu disse.
- Vamos todos juntos, ok? - Continuei.
Todos concordamos. Deixamos nossas coisas na estante de mochilas, fomos ao refeitório pegar suco. Mas as portas estavam trancadas.
- É -Disse Douglas – Pelo visto iremos ter suco só semana que vem.
Voltamos à biblioteca e notamos que a porta estava trancada. Quando nos viramos para ir a diretoria reclamar, ouvimos as portas da entrada rangerem. E por fim, elas se fecharam em um baque agudo.
Fomos correndo em direção à porta e começamos gritar por socorro. Mas não vimos necessidade de continuar, pois percebemos que era inútil.
- Sem comida.. - Igor murmurou.
- Presos aqui pelo resto do fim de semana.. - Eu continuei.
- E sem nada.. Nem mesmo o trabalho para continuar.. - Eduardo completou.
- Tem como ficar pior?! - Douglas disse.
PAAAM!
As luzes se apagaram ao mesmo tempo. E a escola mergulhou na escuridão.
- Tinha de abrir essa boca Douglas?! - Eduardo, tentando conter o riso, reclamou.
Como a noite era de lua cheia, a escola ficava parcialmente iluminada por seus raios.
Ficamos sentados de costas para a porta por alguns minutos até Douglas fala.
- Bom, já que estamos presos aqui, vamos fazer o que?
- Nada – Eduardo falou. - Quem sabe dormir..
- Tive uma idéia! - Igor, subitamente, disse. - Quem sabe nós não ligamos para casa de um dos nossos pais? Aí eles vêm nos buscar aqui.
- Eu não tenho celular. - Eduardo falou.
- Nem eu – Douglas continuou.
- O meu está em casa. - Igor disse, com tom desolado.
- E o meu está na minha mochila.. Só que elas estão na estante de mochilas.. - Reclamei.
Levantamo-nos e fomos em direção à biblioteca. Como estava trancada, pensamos em um jeito de arrombá-la. Mas não havia nada para fazê-lo. Então olhamos para o lado, e vimos a secretaria. Poderia haver algo que nos ajudasse a abrir a porta lá dentro. Fomos perto da janela, é de vidro, frágil. Então, tentamos abri-la, mas como todas as outras partes do colégio, estava trancada. Foi aí que Igor disse:
- Minha mãe vai me matar.
Sem dizer mais nada, enrolou seu casaco no braço.
- O que você vai fazer? - Perguntou Eduardo.
Sem responder, Igor quebrou o vidro da janela. Entramos e ficamos procurando algo para abrir a porta. Não achamos nada. Apenas uma cadeira. Pegamos e atiramos contra a porta. Na primeira vez, a porta nem se mexeu. Na segunda, ela tremeu. Na terceira, já estávamos cansados, mas finalmente ela cedeu, e caiu no chão fazendo um forte barulho.
- Ah! Isso! - Eduardo exclamou.
Eu entrei na biblioteca e peguei nossas mochilas. Tirei meu celular, tentei ligar para minha casa, mas estava sem créditos. “Justo agora me faltam créditos!” pensei. Eduardo teve a idéia de ligar para a polícia, falou a telefone berrando e os policiais entenderam que era uma brincadeira. Ele poderia ter falado com mais calma.
Saímos da biblioteca dessolados. E já que não havia nada para fazer sem luzes acesas, tivemos a idéia de procurar o gerador, que costumava ficar na sala dos professores. Então fomos em direção à porta da sala dos professores, e de repente vimos dois vultos subindo a escada.
- Deve ser só o luar. - Disse Douglas.
Então fomos para a porta de entrada, mas não tinha ninguém lá fora. Voltamos para a sala dos professores, mas como já imaginávamos estava trancada. Já íamos falar para o Igor arrombá-la, mas Douglas teve uma idéia melhor. Irmos até a secretaria, já que ela estava aberta, para vermos se as chaves ficavam lá. Então, paramos em frente a porta da vice-direção, Igor veio rapidamente e a arrombou.
- Não estava trancada! -Falou Eduardo com tom irritado.
- Ops! - Igor disse, meio envergonhado.
Entramos na sala e procuramos pelas chaves da escola. Abrimos os armários de chaves, mas ao invés de ter vários molhos de chave, tinha apenas um, justamente o da sala dos professores! (que conveniente!).
Sem falar nada, fomos a sala dos professores procurar o gerador de luz. Abrimos as portas facilmente (sim! Tínhamos uma chave!). Ao abrirmos as portas nos deparamos com uma espaçosa sala e uma enorme mesa de centro. Mais atrás havia uma sala de depósito de livros, ao lado um banheiro, e, logo atrás a sala onde o gerador estava.
Quando estávamos na sala do gerador, nos assustamos ao ver que ele tinha um arranhão que o partia em dois. - “O que será que tinha acontecido” - pensei comigo.
- Pelo visto está quebrado.. - Eduardo disse.
- Oh! Não me diga! - Igor falou com sarcasmo.
Os dois começaram a brigar feito crianças, mas no meio da briga Igor empurrou na direção do gerador.
ZAAP!
Uma explosão fez com que Eduardo desmaiasse. Como não sabíamos o que fazer, tentamos reanimá-lo, mas não estávamos vendo praticamente nada, pensamos em levá-lo para fora, mas enquanto saíamos da sala, a maçaneta da porta começou a girar. Instintivamente, nos escondemos embaixo da ampla mesa (arrastando o Eduardo para todo o lado). Olhamos por debaixo da mesa, e vimos um vulto encapuzado com uma máscara cor branca entrar na sala. Nem parecia que encostava seus pés no chão. Não parecia nem um pouco amistoso. Sem pensar me segurei nos pés do sujeito. Douglas rapidamente entendeu me plano, levantou e derrubou-o. Igor, aproveitando que ele estava deitado, pegou um abajur de vidro e atirou na cabeça do mascarado. O estranho gemeu de dor, caindo no chão.
- Vamos revistá-lo. - Douglas disse, meio assustado.
Encontramos em seus bolsos, um cartão transparente e uma pistola. Amordaçamos e estranho no banheiro, tiramos sua máscara e sua capa. “Ufa! Estava com roupa por baixo” me aliviei.
De repente ouvimos passos descendo as escadas. Igor velozmente me trancou na sala de depósito de livros, junto com Eduardo.
- Me tire daqui! - Protestei.
- Não! Você vai me seguir! - Igor disse. - Alguém tem que cuidar do Eduardo, prefiro que seja você.
Ele foi embora sem se importar com meus gritos de protesto. Então notei que tinham jogado a chave por debaixo da porta. Isso me fez ficar mais aliviada.
Quando abri a porta temia que tivesse alguém do lado de fora, mas por sorte não tinha ninguém. Tirei Eduardo de lá, e o levei para o banheiro. Joguei água em seu rosto. Alguns minutos depois ele acordou. Depois de falar tudo o que tinha acontecido seu único comentário foi:
- Sério!
Saímos de lá correndo, e fomos para a parte de trás do colégio. Ficamos lá por um tempo, até termos certeza de que não havia ninguém por perto. Depois, entramos no pátio por uma porta que dava acesso ao local. Para a nossa surpresa vimos Douglas e Igor amarrados em um cano. Desamarramo-os e ouvimos tudo o que eles tinham para contar. Contaram que dois estranhos tinham discutido na frente deles. Eles estavam ali procurando um diário e uma chave. Que provavelmente abriria o diário. E também ouviram os estranhos falarem sobre a chefe deles, ser uma professora.
- Aposto que é a professora Miriam! - Igor disse protestando.
- Cala a boca Igor! - Eu falei.
- Então, vamos procurar o diário. Eduardo e Iviane, vão pelo portão e procurem o diário, eu e o Igor vamos por esta porta procurar a chave. -Douglas disse, organizando pela pela primeira vez as coisas.
Eu e o Eduardo saímos pelo portão do pátio, então avistamos, dois homens, em frente ao bar. Fomos nos esconder na casinha de depósito de cadeiras ao lado do pátio. A porta estava trancada (Que novidade!). Mas como estava muito amassada por conta das boladas, Eduardo não precisou mais do que um chute para derrubá-la. Nós entramos lá e para garantir o mínimo de segurança, colocamos um baú que tinha ali dentro na frente da porta.
Só que assim que tiramos o baú do seu lugar, notei uma abertura no chão.
- Eduardo, olha! - Falei com entusiasmo.
Era um buraco úmido que ia para o subsolo do colégio. Coloquei meu pé lá dentro, notei que havia algo sólido, foi então que percebi que era uma escada em espiral que descia para o o subsolo. Como o Eduardo sempre foi muito curioso, logo desceu a escada e eu fui atrás. Lá embaixo vimos uma pequena sala iluminada por tochas em todos os cantos e no centro dela se erguia um majestoso pedestal de pedra. Sustentando um diário de capa de couro preta, escrito “Anne Frank”. O curioso é que as letras eram em alto relevo, mas mais curioso ainda é que faltavam as letras “A” e “F”. Subimos novamente. Abrimos a porta para certificarmos de que os estranhos não estavam mais ali. Então encontramos Douglas e Igor na frente do bar.
- Acharam alguma coisa? - Douglas perguntou, esperançoso.
- Não, só um diário mofado que com certeza era da Anne Frank, e que faltavam as letras “A” e “F” de tão velho. Além disso, nada de mais. - Brincou Eduardo.
- Que coincidência, o Igor derrubou de um quadro as mesmas letras. - Douglas continuou, ignorando a brincadeira.
- Onde está o diário? - Igor perguntou.
- Na casinha de depósito de cadeiras. - Eu falei.
- Então vamos lá! - Igor e Douglas falaram curiosos.
Fomos correndo para a casinha. Entramos e descemos as escadas, ao chegar lá embaixo, (Igor e Douglas estava maravilhados), pegamos o diário e tentamos abri-lo mas não conseguimos. Então colocamos as letras nos seus devidos lugares. E como por um passe mágica o diário se abriu.
Tentamos ler, mas estava em uma língua desconhecida para nós, (se não é francês, português, inglês ou japonês não conhecemos). Nesse mesmo tempo, uma parte da parede oposta se abriu. E de lá saíram três pessoas. Dois mascarados e uma desmascarada. Foi então que ficamos todos chocados, era a nossa professora Miriam!
- Me dêem este diário! - Falou ela esbravejando.
- Nunca! - Igor falou, fazendo pose.
Então eu tive uma idéia. Peguei uma das tochas que estava perto.
- Se vocês chegarem perto eu queimo o diário! - Disse, com tom ameaçador, segurando o diário
De repente um dos estranhos sacou sua arma e eu, sem querer, aproximei a tocha do diário que começou a pegar fogo. Imediatamente larguei-o no chão. Aproveitando essa deixa nós quatro subimos correndo pelas escadas.
Quando chegamos lá em cima, fomos barrados pelos dois mascarados e pela Miriam, que segurava uma capa de couro chamuscada e as cinzas das folhas que havia dentro.
- Como ousa estragar o trabalho de uma vida inteira! Sua peste! - Disse ela, dirigindo-se a mim.
Ela levantou uma arma e apontou-a para a minha cabeça. Foi então que ouvimos uma enorme batida na porta da escola, mais outra, e por fim a porta cedeu, caindo no chão.
BAM!
Foi tudo muito rápido. Policiais passaram pela porta e apontavam as armas para todos. Logo tudo foi esclarecido. Encontraram o mascarado amarrado e amordaçado no banheiro dos professores. O identificaram como o mais procurado contrabandista de artefatos históricos do país! E prenderam os outros dois junto com a Miriam.
Douglas ficou com a capa do diário como recordação.
Na segunda-feira, falamos que não tivemos tempo para terminar o conto. A professora nos deu uma segunda chance (valendo menos pontos). Mesmo assim ganhamos uma ótima nota, contando a nossa aventura como o conto. No fim das páginas do trabalho colocamos “baseado em fatos reais”. Assim acaba uma história verídica, que de fato aconteceu.
